Apresento aqui um trabalho de astrônomos amadores que estão colaborando para a divulgação da meteorítica no país, são eles:
Carlos José Vieira (1), Antônio Carlos Garcia Júnior
(2), Walace Fernando Neves (3), Marco Júnio de Faria Godinho (4)
Associaçào Astronômica Galileu Galilei – AAGG/ES e
Observatório e crucis.
Rua Madeira de Freitas, 64 Praia do Canto
29055-320
Vitória ES
Tel: (27) 3227-7207
E-mail: carlosjose@escelsa.com.br
O reconhecimento científico da origem marciana dos
meteoritos SNC, assim denominados devido aos meteoritos dos tipos shergottitos,
nakhlitos e chassignitos cujos principais exemplares são respectivamente o
Shergotty que caiu na Índia (1865), o Nakhla no Egito (1911) e o Chassigny na França (1815) com características
muito semelhantes à atmosfera marciana. Isso só pode ser possível pela análise
comparativa entre os gases encontrados em bolhas de ar desses meteoritos e os
dados de estudo da atmosfera marciana pelas sondas americanas da Missão Viking.
O trabalho apresenta um breve histórico das
principais pesquisas que levaram ao reconhecimento, bem como apresenta a
classificação e a teoria mais aceita da ejeção dos meteoritos marcianos.
Três meteoritos observados em queda, Chassigny na França (1815), Shergotty na Índia (1865) e Nakhla no Egito
(1911) foram catalogados como acondritos por sua semelhança com os meteoritos
do grupo HED. O shergottito
apresentava uma estrutura semelhante
aos eucritos basálticos, o nakhlito e o
chassignito como um cumulado de howardito e eucrito.
O ALHA84001 esteve relacionado como diogenito
até 1993 quando David Mittlefehldt do Johnson Space Center (NASA) detectou Fé oxidado em sua composição, em
contraste com o Fe reduzido dos meteoritos HED, indicando que veio de um
planeta semelhante à Terra, rico em
elementos voláteis, e não de um asteróide pobre em voláteis. Isótopos de O
provaram pertencer à família SNC .
Representavam um grupo de rochas ígneas
petrologicamente similares entre si mas
apresentavam características anômalas comparadas com outros meteoritos.
Daí serem chamados de acondritos SNC
– S de Shergotty, N de Nakhla e C de Chassigny.

Foto 1: Chassigny
Foto 2: Shergotty (frag.) Foto 3: Nakhla
Desde 1872
era conhecida a composição basáltica
formada em condições relativas de oxidação do meteorito de Shergotty.
Pesquisadores como Papanastassiou e Wasserburg (1974) demonstraram que os
meteoritos nakhlitos apresentavam uma idade de cristalização muito recente de
1,37 bilhões de anos datados pelo método rubídio-estrôncio (Rb-Sr) e a
abundância de elementos químicos mais encontrados na Terra que aqueles medidos
em um meteorito HED (elementos de alto
teor de oxigênio, água e outros voláteis, minerais com ferro oxidado e uma
grade isotópica de oxigênio distinta).
Hipóteses não asteroidal foram aventadas para o
corpo celeste de origem dos meteoritos
SNC , visto que a atividade metamórfica plutônica que deu origem aos HED cessou
a 4,5 bilhões de anos. Teria, portanto, que ser outro corpo celeste, no caso um
planeta não gasoso para melhor explicar os dados encontrados. Não se poderia dizer
de qual deles por se desconhecer a
composição de solo dos demais planetas.
A ejeção de material da superfície de Vênus
seria praticamente impossível pela quantidade
de energia necessária para vencer a gravidade planetária. A ejeção de
Mercúrio seria também pouco provável por tratar-se de planeta de órbita muito interna e necessitaria também de
considerável energia cinética gerada pelo impacto asteroidal para ejetar
material a uma órbita externa e fugir da grande atração gravitacional do Sol. A
comparação química com as amostras lunares trazidas pelas missões Apollo
eliminou a possibilidade de os meteoritos SNC terem origem lunar. No final da
década de 70 muitos pesquisadores já propunham a origem marciana para os SNC.
Nessa época, em 1976, a composição química da
atmosfera de Marte pode ser determinada pelas sondas espaciais da Missão
Viking.
Até 1980 novos meteoritos foram descobertos e
classificados no grupo dos SNC.
|
Meteorito |
Data |
Pêso |
Classificação |
|
Lafayette – EUA |
1931 |
0,80
Kg |
N |
|
Governador Valadares - Brasil |
1958 |
0,16
Kg |
N |
|
Zagami – Nigéria |
1962 |
18
Kg |
S |
|
ALHA 77005 - Antártica |
1978 |
0,48
Kg |
S |
|
EETA 79001 - Antártica |
1980 |
7,90
Kg |
S |
Coube a Bogard e Johnson (1983) a primeira
evidência experimental da hipótese de origem marciana. Eles mediram o teor dos
gases argônio, kryptônio , xenônio e a
relação D/H contidos nos nódulos vítreos encontrados nos meteoritos Allan Hills
(ALHA77005) e Elephant Moraine (EETA79001) e o compararam à composição
atmosférica de Marte medido pelas sondas Viking.

Foto 4: EETA 79001 Gráfico 1: Comparação
da atmosfera de Marte
com os gases contidos no
EETA 79001
Levando adiante as investigações, em 1985, Wiens e Pepin determinaram o teor de
isótopos de nitrogênio e a razão N/Ar
contidos em EETA 79001 e compararam com os valores encontrados na análise
atmosférica marciana pelas sondas Viking. Concluíram pela alta evidência da
origem marciana dos meteoritos SNC e tiveram a aceitação da comunidade
científica.
Muitos mecanismos foram propostos para explicar
como uma rocha de Marte poderia ser ejetada até a Terra. A hipótese mais
plausível é a proposta por Thomas Ahrens e John O’Keefe, segundo a qual um impacto meteorítico de grandes proporções
em ângulo entre 25o e 60o na superfície de Marte tenha
proporcionado a um bloco de pedra da sua superfície energia cinética capaz de
vencer a força gravitacional do planeta, com velocidade de escape
5 Km/s.
Estudos em simulação indicam que um impacto de
7,5Km/s é capaz de ejetar um fragmento de rocha de 1 metro a 20 Km/s.
Figura: Concepção artística de um impacto meteorítico em Marte
lançando fragmento de solo à Terra.
Esta teoria explica também porque os meteoritos
marcianos são rochas ígneas e situadas logo abaixo da superfície do planeta e
não expostos à irradiação cósmica. As rochas sedimentares e o solo de Marte podem não ser
suficientemente consolidados para sobreviverem intactas ao impacto de tal
proporção.
Estas rochas meteoríticas são constituídas de
minerais primários, produtos de intempéries tanto em Marte como na Terra e
minerais produzidos pelo choque. Do
ponto de vista da Petrologia há, até o momento, cinco tipos de rochas ígneas
predominantes na família dos meteoritos marcianos:
|
Meteorito
básico |
Mineral
predominante |
Sigla |
|
Chassigny |
Cumulado de olivina ou dunito |
C |
|
Nakhla |
Cumulados de clinopiroxênio |
N |
|
Shergotty |
Basalto plagioclase-piroxênio |
S-B |
|
Shergotty |
Lherzolito piroxeno-olivino |
L-B |
|
ALH84001 |
Cumulado de ortopiroxênio |
O |
A idade de formação dos meteoritos marcianos
situa-se em torno de 1,37 bilhões de anos, relativamente jovens, enquanto o
único meteorito, ALH 84001 tem idade de 4,5 bilhões de anos.
O tempo de ejeção ou o tempo em que a rocha
viajou pelo espaço interplanetário é variável. Estudando o tempo de ejeção dos
meteoritos, Chassigny, Governador Valadares, Lafayette, Nakhla, Shergotty,
Zagami, ALH77005, ALH84001, EETA79001, LEW88516, Y793605 e QUE94201 encontramos
:

Pelos dados petrológicos e tempo de exposição
desses meteoritos aos raios cósmicos no espaço interplanetário, podemos deduzir
que nos últimos 16 milhões de anos houve pelo menos três choques meteoríticos
na superfície do planeta Marte capazes de ejetar material à Terra nos últimos
16 milhões de anos..

Foto 5 – 6 : Cratera marciana, possível de
ser a origem dos meteoritos SNC
Um interesse inusitado em relação aos meteoritos
marcianos aconteceu quando, em agosto de 1996, uma equipe liderada por David S.
Mckay anunciou a descoberta de possíveis sinais de vida microbiana em um
meteorito marciano. Esses sinais
seriam:
1o) Evidência de água – comprovado
pela presença de glóbulos de carbonatos minerais com idade de 3,6 bilhões de anos;
2o) Presença de hidrocarbonetos
aromáticos policíclicos (PAHs) - são
compostos de estrutura mais complexas, de origem orgânica viva ou mesmo
pré-biótica. Podem ser produtos da decomposição bacteriana como de emissão antropogênica.
Os PAH’s estão presentes nos meteoritos condritos carbonáceos e na poeira
interplanetária e interestelar;
3o)Formas microscópicas alongadas que
lembram fósseis de bactérias ou nanobactérias pelo tamanho;
4o) Grãos minerais, produtos
catabólicos de bactérias terrestres, como a greigita (óxido de S), magnetita
(óxido de Fe), carbonato de Mg e pyrrotita.
Foto7 : Vista da
região central de carbonatos mostrando a textura da superfície e formas
nanométricas ovóides e alongadas. Elas se assemelham a nanobactérias
encontradas em algumas rochas terrestres.

Foto 8 : Imagem de
microscopia eletrônica mostrando estruturas tubulares que podem ser fósseis de microorganismos.
Muitas discussões
com hipóteses e evidências contrárias foram apresentadas. Afinal a
possibilidade de que a Terra fora salpicada não só de material orgânico, mas de
vida também através de meteoritos (Teoria da Panespermia) é uma idéia há muito
aventada.
Uma parcela
significativa da comunidade científica é cética em relação a esta hipótese,
haja visto trabalhos anteriores, como
o de Otto Hahn no século XIX ao descrever estruturas fósseis em meteoritos e
desmentido posteriormente ao se
demonstrar tratar-se de uma contaminação terrestre, e o bacteriologista Charles
Lipman em 1930, que cultivou células vivas encontradas em meteoritos e foi
provada a contaminação laboratorial da amostra.
Mas, David McKay
defende seu ponto de vista ao afirmar: “ Nenhuma dessas observações por si são
conclusivas da existência de vida passada em Marte. No entanto, são explicações
alternativas para cada fenômeno individualmente, mas, quando considerados
coletivamente, são sugestivas de evidência de vida primitiva no passado de
Marte”.
Marte é um planeta
complexo. Pode-se esperar que à medida que os meteoritos marcianos sejam
encontrados, novas rochas continuem a
ser identificadas.
Por enquanto os
meteoritos marcianos catalogados são:
|
Chassigny -
França
|
Sherotty – Índia
|
|
Nakhla – Egito |
Lafayette - EUA |
|
Governador
Valadares - Brasil |
Zagami - Nigéria |
|
ALHA77005 – Antártida |
Dar al Gani
476 (1998) - Líbia |
|
EETA79001 – Antártida |
Dar al Gani
489 |
|
LEW88516 - Antártida |
Dar al Gani
735 |
|
ALHA84001 – Antártida |
Dar al Gani
670 |
|
QUE94201 - Antártida |
Dar al Gani
876 |
|
Y793605 –
Antártida |
Y000593 -
Antártida |
|
Los Angeles
001 - EUA
|
Dhofar 019 - Oman |
|
Los Angeles
002 - EUA
|
Dhofar 378 - Oman |
|
Sayh al Uhaymir
005 - Oman
|
Northwest Africa 480 - Algéria |
|
Sayh al Uhaymir
008 - Oman
|
Northwest Africa 817 - Marrocos |
|
Sayh al Uhaymir
051 - Oman
|
Northwest Africa 856
- Marrocos |
|
Sayh al Uhaymir
094 - Oman
|
Northwest Africa 1068 - Saara Oeste |
|
Sayh al Uhaymir 060 - Oman |
Northwest Africa 1110- Marrocos (?) |
|
Sayh al Uhaymir
090 - Oman
|
YA1075 -
Antártida |
|
GRV 99027
- Antártida |
Y000749 -
Antártida |
Este texto é baseado no trabalho abaixo
Carlos José Vieira (1), Antônio Carlos Garcia Júnior
(2), Walace Fernando Neves (3), Marco Júnio de Faria Godinho (4)
Associaçào Astronômica Galileu Galilei – AAGG/ES e
Observatório e crucis.
Rua Madeira de Freitas, 64 Praia do Canto
29055-320
Vitória ES
Tel: (27) 3227-7207
E-mail: carlosjose@escelsa.com.br
1– Diretor do Setor de Meteorítica da Associação
Astronômica Galileu Galilei, Vitória ES
2- Presidente da Associação Astronômica Galileu
Galilei –AAGG , Vitória ES
3- Diretor dos Setores de Fotografia e Estudos Solares da AAGG.
4- Diretor do Setor de Planetologia da AAGG.
_______________________________
Referências Bibliográficas
1-
“Three
Special Stones.” Sky & Telescope, 12, Fev. 1996.
2-
Bagnall,
P.M. “The meteorite and tektite collector’s handbook” Williann-Bell Inc., 1991.
3-
Bogard,
D. D. e Johnson, P. “Martian Gases in na Atarctic Meteorite?” Science 221,
651 – 654, 1983.
4-
Branco, P.M. “Dicionário de
mineralogia” 3.º ed.- Porto alegre, SAGRA, 1987.
5-
Jansen,
M.R., Jansen, W.B e Black, A.M. “Meteorites from A to Z”, 2001.
6-
Norton,
O.R. “The Cambridge encyclopedia of meteorites”, 2002.
7-
Ott,
U. e Bergmann, F. “Are All the ‘Martian’ Meteorite from Mars? “ Nature 317,
509 – 512, 1985.
8-
Pepin,
R.O. “Evidence of Martian Origins.” Nature 317, 473 – 475, 1985.
9- Schiff, J. “Mars
invades Los Angeles” Meteorite! 6, 5-6, 2000.
10-
Treiman,
A. “Microbes in a martian meteorite” Sky and Telescope 97,
n. 4, 52-58, 1999.
11-
Vickery,
A.M. e Melosh, H. J. “The Large Crater Origin of SNC Meteorites.” Science
237, 738 – 743, 1987.
12-
Internet:
http://www.jpl.nasa.gov